Polarização e genocidio

Editorial JK-RUANDA, 1994: O MASSACRE DA DESINFORMAÇÃO

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Editorial JK

Como o ódio fabricado resultou em um genocídio de quase um milhão de vidas em apenas 100 dias

O estopim de um ódio cultivado
Entre abril e julho de 1994, Ruanda testemunhou um dos maiores genocídios da história contemporânea. Em pouco mais de três meses, estima-se que 800 mil tutsis e hutus moderados foram brutalmente exterminados. Não foi uma guerra convencional. Foi um assassinato coletivo, corpo a corpo, feito com facões e paus. Muitos mataram quem conheciam: vizinhos, colegas de trabalho, até padrinhos de seus próprios filhos. O tecido social de Ruanda se rasgou em uma velocidade e profundidade que chocou o mundo — e expôs um fator crucial: a desinformação como arma de destruição em massa.

Raízes históricas do preconceito
A divisão entre hutus e tutsis, hoje reconhecida como artificial e politicamente fabricada, foi inicialmente sedimentada pelos colonizadores belgas no início do século XX. Para governar com mais facilidade, eles hierarquizaram artificialmente as etnias, favorecendo os tutsis no acesso ao poder, à educação e à propriedade. O rancor acumulado e instrumentalizado ao longo das décadas transformou-se em uma bomba-relógio. Quando os belgas deixaram o país, deixaram também o germe do ódio.

A propaganda que mata
Antes do primeiro golpe de facão, o genocídio já havia começado — nas ondas de rádio. A Rádio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM) propagou incessantemente discursos que desumanizavam os tutsis, rotulados como “baratas” e “inimigos da nação”. Apresentadores e líderes políticos incitavam a população a “cortar as árvores altas”.
A lógica era simples e perversa: se o inimigo não é visto como humano, matá-lo não é crime. A propaganda transformou cidadãos comuns em carrascos. Uma fake news repetida à exaustão se tornou sentença de morte.

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O assassinato que acendeu o incêndio
O estopim oficial ocorreu em 6 de abril de 1994, quando o avião que transportava o presidente ruandês Juvénal Habyarimana foi derrubado. Sem investigação ou hesitação, o regime hutu radical culpou os tutsis e iniciou uma operação genocida previamente planejada. Listas de alvos já estavam prontas, milícias formadas e facões importados em massa meses antes.
O discurso do medo encontrou seu momento.

O silêncio cúmplice da comunidade internacional
A ONU — marcada pelo trauma recente da Somália — hesitou. Países com poder de intervenção, como EUA, França e Bélgica, preferiram a omissão estratégica. Em vez de chamar de genocídio, inventou-se um eufemismo burocrático: “atos de genocídio”, para evitar obrigações legais de intervenção. Ruanda sangrava enquanto o mundo observava — e virava a página.

O colapso da confiança
Quando a desinformação se torna verdade oficial, nenhuma relação resiste. Famílias foram partidas ao meio. Vizinhos, antes amigos, viraram inimigos mortais.
Uma pergunta ecoa na memória das vítimas:

“Como alguém que me conhecia desde criança foi capaz de me matar?”
A resposta está na manipulação lenta, diária, calculada.

Um crime de proximidade
Ao contrário de genocídios promovidos por guerras tecnológicas, em Ruanda os perpetradores olhavam suas vítimas nos olhos. Quase todos sabiam quem estavam eliminando. A lista de mortos veio muitas vezes de cadastros civis e igrejas locais. O Estado transformou cada esquina em trincheira, cada casa em cemitério.

Um país inteiro marcado pela dor
Os mortos foram empilhados nas ruas, nas igrejas, no fundo de escolas — lugares que deveriam proteger a vida. Crianças presenciaram horrores inimagináveis. Sobreviventes carregam até hoje cicatrizes físicas e psicológicas que não cicatrizam com o tempo.
Ruanda reconstruiu prédios, estradas e instituições. Mas como reconstruir a alma de um povo?

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A lição que poucos querem aprender
Ruanda lembra ao mundo que a desinformação não é mero ruído nas redes sociais — é pólvora ideológica. Quando governantes e comunicadores instrumentalizam o medo e o preconceito, a sociedade inteira corre o risco de se tornar homicida.
A polarização — quando atiçada e organizada — mata.

O que o futuro insiste em esquecer
Hoje, discursos de ódio voltam a ganhar espaço em diversos países. Minorias voltam a ser alvos de fake news institucionalizadas. Plataformas digitais aceleram e amplificam o que a RTLM fazia manualmente.
O manual do genocídio está disponível — e ao alcance de qualquer dedo.

Nunca mais” é uma promessa frágil
O mundo jurou nunca repetir os horrores do Holocausto. Depois, Ruanda. Depois, Srebrenica. Hoje, novos ódios são alimentados diariamente, com ferramentas mais poderosas e velozes. E as democracias parecem incapazes de reagir quando o mito supera o fato.

Ruanda como espelho
O genocídio ruandês não foi apenas obra de radicais armados — foi obra de uma sociedade envenenada pela desinformação. Não é um acontecimento distante.
É um alerta.
Quando a verdade é deformada e o outro vira inimigo, a barbárie encontra caminho. Basta isso:
um microfone, alguns boatos, um líder disposto a manipular, e o medo — sempre o medo.

Conclusão
Ruanda é o testemunho mais brutal de que fake news podem matar em escala industrial.
E o que aconteceu em 1994 continua a nos perseguir:

Um povo instruído a odiar… pode destruir a si mesmo.

Antes que seja tarde, é preciso perguntar:
a quem interessa transformar cidadãos em assassinos?

Se o mundo não souber responder, a história se repetirá.

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