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Em diversas cidades iranianas, muitas pessoas vivem noites sem dormir e dias de ansiedade em meio às constantes especulações de que os Estados Unidos poderiam estar prestes a realizar ataques militares.
Alguns jovens, em particular, estão verificando obsessivamente plataformas de rastreamento de aviões e navios – alguns com medo de intervenção externa, outros desejando-a silenciosamente ou abertamente desde a violenta repressão dos protestos contra o governo há mais de 50 dias.
Para muitos, a esperança de que a pressão externa pudesse mudar o equilíbrio diminuiu quando o presidente dos EUA, Donald Trump – que anteriormente encorajou os manifestantes a “continuarem protestando” e prometeu que “a ajuda está a caminho” – pareceu optar por um diálogo diplomático.
O número de vítimas humanas dos distúrbios permanece profundamente contestado. A organização de direitos humanos HRANA, sediada nos EUA, relata 7.007 mortos, com milhares de outros casos ainda sob investigação – um número muito superior ao oficial iraniano de 3.117, o que revela a grande falta de transparência em torno da repressão.
Especialistas da ONU, incluindo a relatora especial para os direitos humanos no Irã, Mai Sato, enfatizam que as restrições à internet e as detenções em massa tornam “impossível determinar a verdadeira dimensão da repressão violenta” nesta fase.
Com a terceira rodada de negociações entre EUA e Irã em Genebra terminando esta semana sem um acordo final, mas com tênues sinais de progresso, o Irã entra mais uma vez em uma fase de profunda incerteza.
Muitos iranianos temem que o colapso das negociações possa desencadear consequências catastróficas. Alguns analistas alertam que os líderes do Irã já indicaram que prefeririam arriscar uma “guerra regional” a ceder. Alguns observadores da inteligência sugerem que a República Islâmica poderia adotar uma postura de “loucura” caso fosse confrontada militarmente, ameaçando deixar um rastro de destruição em vez de permitir uma queda sem contestação.
Essas preocupações são reforçadas por relatos de repressão interna contínua. Mai Sato alertou para a crescente pressão sobre advogados de direitos humanos e afirma que prisões, intimidações e vigilância continuaram muito tempo depois do arrefecimento da principal onda de protestos, contribuindo para o que ela chama de um dos períodos mais sombrios em matéria de direitos humanos na história recente do Irã. Seus repetidos apelos por “transparência e responsabilização” refletem a crescente preocupação internacional.
Nas redes sociais pró-governo, duas narrativas concorrentes predominam.
Um grupo expressa um otimismo cauteloso, esperando que as negociações impeçam outro conflito e evocando memórias da guerra Irã-Iraque, que durou oito anos, e da escalada mais recente de 12 dias com Israel, que deixou mais de 1.200 mortos e mais de 6.000 feridos no Irã. Vinte e oito pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas em Israel durante as hostilidades.
O outro lado adota uma perspectiva apocalíptica, insistindo que um confronto em grande escala entre o “bem e o mal” é inevitável, independentemente da diplomacia.
Entretanto, os meios de comunicação estatais aumentaram consideravelmente as transmissões que mostram as capacidades dos mísseis – uma tática comum em períodos de tensão elevada.
Economicamente, o país está entrando no que deveria ser sua temporada de compras mais movimentada, às vésperas do Nowruz – o Ano Novo Persa – mas o clima não é o mesmo de costume nesta época.
Com o Irã sofrendo com as sanções dos EUA e a inflação ultrapassando os 62%, o mercado está paralisado pela incerteza. Os operadores relatam um fluxo mínimo de pessoas e os investidores parecem hesitantes, adiando movimentos importantes que agora se assemelham mais a apostas do que a decisões estratégicas.
Outra tendência visível nas redes sociais é a crescente preparação para emergências: pessoas estocando alimentos enlatados, lanternas e garrafas de água, e montando mochilas de emergência.
Embora algumas figuras da oposição enquadrem a possibilidade de uma intervenção dos EUA como um ataque direcionado, outras alertam para o potencial de uma operação militar mais ampla e devastadora.
A sensação de incerteza não se restringe ao Irã. Vários países aconselharam seus cidadãos a deixarem o país e, com o aumento das tensões regionais, a importância da próxima rodada de negociações parece ser de ordem existencial.
Para milhões de pessoas dentro do Irã, as próximas semanas prometem pouca clareza – apenas a esperança de que a diplomacia prevaleça antes que o medo se transforme em realidade.
Sem uma saída clara para a crise, o panorama emocional dentro do Irã é marcado por exaustão, polarização social e hipervigilância.
Com a aproximação da próxima rodada de negociações, o público oscila entre uma tênue esperança de diplomacia e uma aguda consciência de que eventos muito além do seu controle podem remodelar seu futuro da noite para o dia.
Para muitos, o Irã parece estar agora em um limbo tenso, onde tudo — e nada — pode mudar de uma só vez.
























