Por Rodrigo Rodrigues
Como um encontro mineiro mudou a música universal
Quando o álbum Clube da Esquina chegou às lojas brasileiras em abril de 1972, a tropicália já havia incendiado o país, o rock psicodélico invadia o mundo e o progressivo britânico colocava o virtuosismo no centro do palco. Mas aquele disco — com dois jovens de cabelos longos na capa, sentados à beira de uma estrada em Nova Friburgo — trouxe algo que ninguém estava esperando: uma nova síntese mundial de sons.
Milton Nascimento e Lô Borges, liderando um coletivo de músicos mineiros, criaram uma obra que uniu harmonia jazzística, poesia existencial, voos psicodélicos, MPB, folclore indígena, candomblé, Beatles, bossa nova e soul — tudo sem pedir licença.
O impacto foi tão forte que ultrapassou fronteiras, oceanos e idiomas. Virou referência cult na Europa, na América do Norte e na Ásia. Muitos músicos estrangeiros, décadas depois, seguiriam reconhecendo: o futuro da música estava naquele disco de 1972.

Peter Gabriel e o despertar do Gênesis
Entre os convertidos estava Peter Gabriel. Em entrevistas em rádios europeias no final dos anos 70, e mais tarde em documentários sobre suas influências musicais, Gabriel disse que só descobriu o “seu caminho musical” após ouvir Clube da Esquina.
“Aquilo era liberdade pura.
A música brasileira mostrou que emoção e complexidade podem andar juntas.”
— Peter Gabriel (trecho compilado de entrevistas ao longo dos anos)
Ele comentou ainda que a forma como os mineiros usavam coro, contrapontos e mudanças harmônicas inesperadas abriu uma estrada nova para o Genesis — que à época buscava expandir os limites do rock progressivo.
Phil Collins, baterista do grupo, também citou Milton em entrevistas, descrevendo-o como “uma das vozes mais surpreendentes que já ouvi”.
Não à toa, anos depois, Milton e Gabriel colaboraram em projetos humanitários e festivais de música globalizada, compartilhando o palco diversas vezes.

Herbie Hancock e o jazz que se curvou
Nos EUA, o jazz moderno encontrou em “Clube da Esquina” um laboratório perfeito. Herbie Hancock, gênio que flutuava entre Miles Davis e o futuro eletrônico, declarou em 1980:
“Milton toca as notas que a alma precisa ouvir.”
— Herbie Hancock
Hancock viria a gravar “Três Pontas” e tocar ao vivo “Ponta de Areia”, considerando Milton um dos compositores mais avançados do planeta.
O saxofonista Wayne Shorter, do Weather Report, foi ainda mais longe: mudou-se para o Brasil por um período e se tornou praticamente “mineiro honorário”.

Betty Carter, Paul Simon e o mundo pop que se encantou
A jazzista Betty Carter e cantoras de soul americanas passaram a estudar as melodias de Milton para expandir sua técnica vocal.
Já Paul Simon, quando pesquisava sonoridades brasileiras e africanas para a construção de Graceland, citou Milton: era a demonstração de que a música podia ser universal sem perder a raiz.
E não para por aí:
Artistas como Sting, Cat Stevens, Brian Eno, Pat Metheny e Bjork já nomearam Milton e o Clube como influência direta ou espiritual.

Do Japão à Islândia: o culto internacional
No Japão, o álbum foi redescoberto nos anos 90 pela cultura do acid-jazz e do vinil rare-groove. Tornou-se objeto de culto entre DJs de Tóquio e Osaka — o groove de “O Trem Azul” rodando em pistas eletrônicas.
Na Europa, remasterizações e reedições de luxo colocaram o disco no topo de listas de “melhores álbuns de todos os tempos”:
Rolling Stone Brasil: 7º melhor álbum da música brasileira
Diversos críticos europeus: entre os 100 discos essenciais da história

Por que o Clube da Esquina mudou tudo?
Se a Tropicália chocou o sistema, o Clube emocionou e elevou o patamar da música brasileira ao nível dos grandes movimentos globais.
Ingredientes dessa revolução:
Era vanguarda e raiz ao mesmo tempo.
Clube da Esquina como patrimônio da humanidade
Músicos do mundo inteiro continuam descobrindo o disco como quem encontra uma mina sonora infinita (não por acaso, Minas Gerais…).
Hoje, universidades americanas usam faixas do álbum para ensinar modulações harmônicas complexas. DJs eletrônicos o sampleiam em sets globais. Jovens músicos o estudam como manual de transcendência musical.
Milton Nascimento se tornaria, então, um dos artistas mais respeitados do planeta, capaz de cantar com estrelas pop ou com indígenas do Xingu — sempre com a mesma verdade.
“A música do Clube da Esquina não pertence a Minas,
pertence ao mundo.”
— Crítico do The Guardian, 2022

A esquina onde o mundo se encontra
“Clube da Esquina” não foi apenas um disco.
Foi uma cartografia afetiva do planeta, desenhada por jovens sonhadores em um país sob ditadura.
E dali nasceria a certeza de que:
Não há fronteiras para a música brasileira quando ela decide ser universal.
Na esquina onde Milton e Lô pararam, o mundo inteiro passou — e ainda passa — para aprender a sonhar melhor.



























