Por Rodrigo Rodrigues
Tudo que a China Precisava para se Consolidar como “Farol do Mundo” Era Trump na Presidência dos EUA
A ascensão chinesa, a crise americana e o risco de uma geração perdida pelo vácuo regulatório nas redes sociais
Nos últimos 20 anos, o cenário geopolítico mundial passou por mudanças profundas. A China, antes vista como uma potência emergente, consolidou-se como uma superpotência econômica, tecnológica e militar. O que acelerou esse processo, paradoxalmente, foi o próprio comportamento dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, cuja postura autoritária e decisões controversas abalaram a credibilidade americana como o maior símbolo da democracia mundial. Esse enfraquecimento da imagem dos EUA abriu espaço para que Pequim se apresentasse ao mundo como alternativa, vendendo-se como um modelo de estabilidade, inclusão social, avanço tecnológico e formação de capital humano.

O Papel de Trump: A Derrocada da Credibilidade Americana
Quando Donald Trump assumiu a presidência em 2017, o mundo já vivia um momento de transição, com tensões comerciais crescentes entre Washington e Pequim. No entanto, as políticas adotadas pelo republicano não só falharam em conter a ascensão chinesa, como acabaram por fortalecê-la.

Trump adotou uma estratégia de confrontação direta, marcada por guerras comerciais, sanções unilaterais e ataques à própria estrutura de alianças que sustentava a hegemonia dos EUA. Enquanto isso, no campo interno, suas atitudes autoritárias e a insistência em desacreditar instituições democráticas — culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 — criaram uma imagem negativa dos Estados Unidos no cenário global.
Segundo dados do Pew Research Center, em 2016, 64% da população mundial confiava na liderança dos EUA. Em 2020, no último ano de Trump, esse índice despencou para 27%, uma queda histórica. Esse vácuo de liderança foi rapidamente preenchido pela China, que passou a se posicionar como defensora do multilateralismo e da estabilidade econômica.

Além disso, a política fiscal americana gerou consequências devastadoras. Durante o governo Trump, a dívida pública dos EUA ultrapassou US$ 27 trilhões, valor que continuou a crescer com os pacotes de estímulo econômico durante a pandemia. Em 2024, segundo dados do Departamento do Tesouro americano, o país atingiu a marca inédita de US$ 34 trilhões em dívidas.
Esse cenário gera pressão sobre o dólar, cuja hegemonia vem sendo contestada. Cada vez mais países, inclusive aliados tradicionais dos EUA, estão buscando alternativas, como o yuan ou sistemas de pagamentos independentes, reduzindo a dependência da moeda americana.
Paul Krugman, economista vencedor do Prêmio Nobel, alertou em uma recente coluna no The New York Times:
“A instabilidade política interna nos Estados Unidos ameaça não apenas a economia doméstica, mas também a posição do dólar como moeda de reserva global. Essa vulnerabilidade é um presente para a China.”

A China como Modelo: Inclusão, Tecnologia e Capital Humano
Enquanto os Estados Unidos enfrentavam crises políticas e fiscais, a China intensificava seus investimentos estratégicos. Nos últimos 15 anos, Pequim direcionou trilhões de dólares para áreas como infraestrutura, educação e tecnologia, estabelecendo metas de longo prazo.
De acordo com o Banco Mundial, entre 2010 e 2023, a China retirou mais de 400 milhões de pessoas da pobreza extrema, um feito sem precedentes na história moderna. Atualmente, a taxa de pobreza extrema no país é inferior a 1%, enquanto nos Estados Unidos 11,5% da população vive abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Census Bureau de 2023.
Na área de tecnologia, a China se tornou líder mundial em setores estratégicos:
• Inteligência Artificial (IA): mais de 36% das patentes globais de IA registradas em 2024 são chinesas, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
• Energia limpa: em 2024, a China foi responsável por 58% da produção mundial de painéis solares e 32% das baterias de lítio.
• Computação quântica: cientistas chineses já superaram os americanos em algumas métricas, como a velocidade de processamento quântico experimental.

O investimento em capital humano também impressiona. O governo chinês mantém um rígido controle sobre a formação educacional, com foco em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Em 2023, mais de 10 milhões de engenheiros e cientistas se formaram na China, enquanto nos EUA foram pouco mais de 600 mil.
Essa disparidade gera efeitos diretos no mercado global, criando uma força de trabalho altamente qualificada, capaz de sustentar a liderança chinesa nas próximas décadas.

TikTok e o Poder do Controle Narrativo
Um exemplo claro da diferença entre os modelos chinês e ocidental está no TikTok, a rede social que se tornou um fenômeno global. O aplicativo pertence à ByteDance, uma empresa chinesa, mas funciona de maneira radicalmente distinta dentro da própria China, onde a versão local, chamada Douyin, tem regras muito mais rígidas.
Na China, o conteúdo exibido para adolescentes é majoritariamente educacional, com vídeos sobre ciência, história e desenvolvimento pessoal. Além disso, existe um limite de 40 minutos diários de uso para menores de 14 anos.

Já no Brasil e em outros países ocidentais, o TikTok se transformou em uma máquina de entretenimento rápido, muitas vezes com conteúdo superficial ou nocivo. Isso gera um impacto direto na formação cognitiva e social de jovens, criando uma geração mais suscetível à desinformação e à perda de foco.
A resistência de setores políticos brasileiros — especialmente da chamada “nova direita” — à regulação das redes sociais tem agravado esse cenário. Alegando “defesa da liberdade de expressão”, esses grupos impedem que medidas básicas de proteção sejam implementadas, deixando jovens expostos a um ambiente digital descontrolado.
Segundo dados da SaferNet Brasil, em 2024, houve um aumento de 37% nos casos de cyberbullying e de 29% na disseminação de fake news em plataformas como TikTok, Instagram e Kwai.
Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens, resumiu bem esse fenômeno em uma palestra recente:
“O mesmo algoritmo que na China educa crianças para serem engenheiros pode, no Ocidente, transformá-las em consumidores passivos. Essa é uma batalha silenciosa pelo futuro da humanidade.”

O Novo “Farol do Mundo”
Historicamente, os Estados Unidos foram vistos como o “farol do mundo”, o país que representava a liberdade, a democracia e o progresso. Porém, a combinação de crise interna, dívida trilionária, polarização política e perda de influência internacional está corroendo esse papel.
Enquanto isso, a China vem se posicionando como a voz da ordem e do desenvolvimento sustentável. A Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) já envolve mais de 150 países, conectando economias através de projetos de infraestrutura e comércio.
Com os EUA fragilizados e a América Latina mergulhada em crises políticas, a China aproveita para expandir sua influência. No Brasil, por exemplo, já é o maior parceiro comercial, movimentando US$ 181 bilhões em trocas bilaterais em 2024, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Essa ascensão não é apenas econômica, mas também cultural e ideológica. Pequim quer se apresentar como alternativa ao modelo liberal ocidental, promovendo uma visão de estabilidade política, meritocracia controlada e planejamento estatal.

O Futuro em Disputa
O mundo está diante de uma transformação histórica. Enquanto os EUA enfrentam uma crise de identidade e de credibilidade, a China avança de forma estratégica, construindo as bases para se tornar a principal potência global nas próximas décadas.
A ausência de regulação nas redes sociais em países como o Brasil pode gerar uma geração menos preparada para enfrentar esse novo cenário. Enquanto jovens chineses são formados com conteúdos educativos e disciplina digital, jovens brasileiros e americanos são capturados por algoritmos que priorizam entretenimento vazio.
Se nada mudar, a diferença de capital humano, tecnológico e econômico entre as nações só tende a se ampliar — consolidando a China não apenas como a nova líder mundial, mas como o verdadeiro “farol do mundo” do século XXI.


























