Alemanha

A tradição guerreira dos germânicos e o possível retorno da Alemanha ao centro da liderança militar da OTAN

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Por Rodrigo Rodrigues
Por décadas, a Alemanha evitou qualquer protagonismo militar explícito. O trauma das duas guerras mundiais, a divisão do país durante a Guerra Fria e o pacto tácito de que Berlim deveria liderar pela economia — e não pelas armas — moldaram sua política externa desde 1945. Mas o mundo mudou. E o tabuleiro geopolítico que se desenha em 2026 pode empurrar novamente os germânicos para o centro da segurança europeia.
Raízes profundas: a tradição guerreira germânica
A vocação militar germânica antecede o Estado alemão moderno. Tribos como queruscos, suevos e saxões já enfrentavam Roma com disciplina, coesão e táticas defensivas sofisticadas. Arminius, o chefe querusco que derrotou três legiões romanas na Floresta de Teutoburgo, tornou-se símbolo fundador da resistência germânica.
Ao longo da Idade Média e da formação do Sacro Império Romano-Germânico, os exércitos germânicos consolidaram uma cultura militar baseada em organização, hierarquia, engenharia e logística — elementos que se tornariam marcas registradas séculos depois.
A Primeira Guerra Mundial: eficiência contra o mundo
Na Primeira Guerra (1914-1918), a Alemanha enfrentou praticamente todas as grandes potências industriais da época. Mesmo assim, demonstrou uma capacidade militar extraordinária. O Plano Schlieffen, embora tenha falhado politicamente, foi uma obra-prima de planejamento estratégico. As tropas de assalto (Sturmtruppen) revolucionaram a guerra de trincheiras, antecipando conceitos de guerra de movimento.
Derrotada mais por colapso econômico e bloqueio marítimo do que por incapacidade militar, a Alemanha saiu da guerra sem ter sido ocupada integralmente — um dado frequentemente ignorado.
A Segunda Guerra Mundial: a máquina de guerra
Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha levou ao extremo sua tradição militar. A Blitzkrieg — combinação de infantaria mecanizada, tanques e apoio aéreo — redefiniu a guerra moderna. Em poucos meses, Polônia, Noruega, Países Baixos, Bélgica e França foram derrotados.
Do ponto de vista estritamente militar, a Wehrmacht demonstrou superioridade tática e operacional por boa parte do conflito, mesmo lutando em múltiplas frentes. A derrota final veio menos por falta de capacidade militar e mais por excesso de frentes, decisões políticas catastróficas e o peso industrial combinado de EUA e URSS.
O pós-guerra e a contenção alemã
Após 1945, a Alemanha foi deliberadamente contida. A Bundeswehr nasceu defensiva, integrada à OTAN, mas sem ambições de liderança. Enquanto França apostava na dissuasão nuclear e Itália mantinha forças armadas de alcance regional, Berlim investia em indústria, tecnologia e integração europeia.
Esse equilíbrio funcionou enquanto os Estados Unidos assumiam o papel de fiador absoluto da segurança europeia.
O novo cenário: Rússia, EUA e o vácuo europeu
A invasão russa da Ucrânia rompeu o pacto de estabilidade continental. Ao mesmo tempo, a política externa americana sob Donald Trump — marcada por isolacionismo seletivo, pressão sobre aliados e movimentos estratégicos agressivos, como o interesse direto na Groenlândia — expôs a fragilidade da dependência europeia de Washington.
Nesse contexto, nem França nem Itália demonstram capacidade — política, econômica ou militar — para liderar uma resposta continental robusta. Paris enfrenta crises internas e limitações fiscais; Roma permanece com foco regional e instabilidade crônica.
Por que a Alemanha emerge como eixo de equilíbrio
A Alemanha reúne hoje os três elementos centrais da liderança militar moderna:
•Capacidade industrial e tecnológica para sustentar um esforço de defesa prolongado;
•Peso econômico suficiente para financiar rearmamento sem colapso fiscal;
•Credibilidade institucional dentro da União Europeia e da OTAN.
O anúncio do maior programa de rearmamento alemão desde 1945 não é retórico. É estrutural. Berlim já assume papel central no apoio militar à Ucrânia e na reorganização da defesa do flanco oriental europeu.
Não hegemonia, mas equilíbrio
Diferente do passado, não se trata de hegemonia alemã, mas de liderança funcional. Um eixo germânico forte serve como contrapeso:
•à expansão russa no Leste;
•à imprevisibilidade estratégica dos EUA;
•e à incapacidade estrutural de outros países europeus de assumir o comando.
A história não se repete — mas rima. A tradição guerreira germânica, moldada por séculos de disciplina, organização e engenharia militar, retorna não como ameaça, mas como necessidade sistêmica. No mundo fragmentado que emerge, a liderança alemã pode ser menos uma escolha e mais uma imposição da realidade.
A OTAN, se quiser sobreviver como aliança relevante, talvez precise novamente olhar para Berlim — não como passado a temer, mas como pilar de estabilidade num continente em risco.
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