Saladino

Saladino: o conquistador que escolheu a misericórdia

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Por Rodrigo Rodrigues

Por entre desertos, muralhas e cidades sagradas, emergiu um líder cuja maior vitória não foi militar, mas moral.

O mundo em que Saladino nasceu

No século XII, o Oriente Médio era um mosaico fraturado. Califados rivais disputavam legitimidade, sultanatos competiam por rotas comerciais, e exércitos cristãos vindos da Europa haviam estabelecido reinos cruzados sobre terras consideradas sagradas por judeus, cristãos e muçulmanos.

Foi nesse cenário de conflito permanente que nasceu Ṣalāḥ ad-Dīn Yūsuf ibn Ayyūb, em 1137, na cidade de Tikrit, às margens do rio Tigre. De origem curda, Saladino cresceu em um ambiente onde fé, erudição e disciplina eram tão valorizadas quanto a espada.

Diferentemente de muitos guerreiros de sua época, ele foi educado nos fundamentos do Alcorão, do direito islâmico e da filosofia, formação que moldaria sua visão singular sobre poder e responsabilidade.

De aprendiz a unificador

A carreira militar de Saladino começou de forma discreta. Servindo sob o comando de seu tio, Shirkuh, participou de campanhas no Egito, então governado pelo enfraquecido califado fatímida.

Ao assumir o cargo de vizir, Saladino encontrou um Estado corroído por intrigas e corrupção. Em poucos anos, promoveu reformas administrativas, reorganizou o exército e restaurou o Islã sunita como base política. Mais do que um governante, tornou-se um símbolo de estabilidade.

Após a morte de seu antigo senhor, Nur ad-Din, Saladino iniciou o que poucos haviam conseguido: unir Síria, Egito e Mesopotâmia sob um comando relativamente coeso, criando as bases de um império capaz de enfrentar os cruzados.

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Hattin: o ponto de inflexão

Em julho de 1187, nas colinas áridas próximas ao lago de Tiberíades, ocorreu a Batalha de Hattin. O exército cruzado, exausto pelo calor e pela falta de água, foi cercado pelas forças de Saladino.

A derrota foi devastadora para os reinos cristãos do Oriente. Relíquias foram capturadas, líderes feitos prisioneiros e a estrada para Jerusalém ficou aberta.

Mas a batalha que definiu o legado de Saladino ainda estava por vir.

Jerusalém sem sangue

Quando Jerusalém caiu nas mãos de Saladino, em outubro de 1187, o passado pesava como uma sombra. O cerco cruzado de 1099 havia terminado em massacre: muçulmanos e judeus mortos indiscriminadamente.

Desta vez, a história seguiu outro caminho.

Saladino proibiu a violência contra civis, garantiu resgates acessíveis e permitiu que milhares de cristãos deixassem a cidade em segurança. Igrejas foram preservadas. Judeus, expulsos décadas antes, puderam retornar.

Para os cronistas da época, muçulmanos e cristãos, aquele momento representou algo raro: a vitória temperada pela contenção.

O código de um guerreiro

Relatos históricos convergem ao descrever Saladino como um líder austero. Vestia-se com simplicidade, evitava ostentação e distribuía riquezas em obras de caridade.

Ao morrer, em 1193, deixou tão poucos bens pessoais que não havia dinheiro suficiente para custear seu próprio enterro.

Sua conduta em guerra seguia princípios claros: prisioneiros não deveriam ser executados, médicos deveriam ser respeitados, civis protegidos.

Essa ética lhe rendeu algo incomum: admiração dos inimigos.

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Encontros com Ricardo Coração de Leão

Durante a Terceira Cruzada, Saladino enfrentou Ricardo I da Inglaterra. Embora jamais tenham se encontrado pessoalmente, mantiveram uma relação marcada por respeito mútuo.

Quando Ricardo adoeceu, Saladino enviou frutas, gelo e seu próprio médico. Quando cavalos foram perdidos em batalha, outros foram oferecidos.

Esses gestos, registrados por cronistas europeus, ajudaram a construir a imagem de Saladino como um líder regido por um código de honra transreligioso.

Fé e autocontrole

Para Saladino, a jihad não se limitava ao combate. Em sua concepção, a maior luta era interna — contra a vaidade, a injustiça e o abuso de poder.

Cronistas atribuem a ele reflexões que ecoam esse pensamento:

“A verdadeira conquista é dominar a própria alma.”

“A injustiça corrói o império por dentro.”

Sua fé não o levou ao fanatismo, mas a uma forma disciplinada de governo.

Um legado que atravessa culturas

Séculos depois, Saladino continua presente em manuscritos árabes, crônicas latinas, romances europeus e na memória coletiva do Oriente Médio.

Para o Islã, ele é um modelo de liderança justa.
Para o Ocidente medieval, um adversário respeitável.
Para o mundo contemporâneo, um lembrete de que a história não é feita apenas de vencedores, mas de escolhas.

Em um tempo marcado por guerras religiosas e intolerância, a trajetória de Saladino desafia simplificações fáceis. Ele foi um conquistador — mas também um homem que compreendeu que o poder, quando não é limitado pela ética, se torna ruína.

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