Hilda Hilst

Hilda Hilst: o escândalo como último gesto de lucidez

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Por Rodrigo Rodrigues

Brilhante, radical e incômoda, Hilda Hilst passou grande parte da vida à margem do reconhecimento que sua obra exigia. Aos 60 anos, cansada do silêncio da crítica, decidiu provocar — e o fez com pornografia, filosofia e fúria.

Por décadas, Hilda Hilst escreveu como quem cava um túnel para o abismo: poesia, teatro e prosa marcados por metafísica, erotismo, misticismo e uma obsessão quase física com Deus, o corpo e a morte. Era respeitada em círculos restritos, mas ignorada pelo grande público e subestimada por parte da crítica especializada. Quando percebeu que a alta literatura, no Brasil, raramente recompensa quem não se acomoda, resolveu virar a mesa.

Aos 60 anos, reclusa em um sítio nos arredores de Campinas, lançou o que ficaria conhecido como sua trilogia pornográfica — não como rendição ao mercado, mas como ataque frontal a ele.

“A obscenidade é uma forma de conhecimento”, escreveu Hilda, desmontando de saída qualquer leitura rasa de sua provocação.

Da infância ao exílio voluntário

Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em 21 de abril de 1930, na cidade de Jaú, interior de São Paulo. Era filha de Apolônio de Almeida Prado Hilst, poeta culto e esquizofrênico — figura trágica que marcaria profundamente sua obra — e de Bedecilda Vaz Cardoso Hilst.

A relação com o pai, internado grande parte da vida em sanatórios psiquiátricos, tornou-se uma das chaves centrais de sua literatura. A loucura, a linguagem quebrada, a tentativa de alcançar o absoluto — tudo isso atravessa seus livros como uma herança dolorosa.

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Hilda cresceu entre o interior paulista e o litoral, e mais tarde mudou-se para São Paulo, onde cursou Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Formou-se, mas jamais exerceu a profissão. A literatura já havia decidido seu destino.

“Escrever é uma maldição que salva”, resumiria anos depois.

A Casa do Sol e o isolamento criativo

Nos anos 1960, Hilda construiu a Casa do Sol, em Campinas — mais que uma residência, um projeto existencial. Ali, viveu por décadas em relativo isolamento, cercada de cães, livros, silêncio e amigos intelectuais. A Casa do Sol tornou-se um polo informal de criação, onde passaram nomes importantes da literatura e do teatro brasileiros.

Esse afastamento do eixo Rio–São Paulo editorial contribuiu para seu apagamento midiático. Enquanto escrevia uma das obras mais densas da língua portuguesa, Hilda via prêmios, vendas e resenhas passarem longe.

A frustração não era pequena.

“Sou uma mulher que escreve. E isso ainda assusta”, dizia, com ironia e precisão cirúrgica.

A trilogia pornográfica: o escândalo calculado

No início dos anos 1990, Hilda decidiu testar os limites do sistema literário. Se o mercado pedia sexo fácil, ela entregaria sexo — mas filtrado por sua inteligência feroz.

Nasciam:
• “O Caderno Rosa de Lori Lamby” (1990)
• “Contos d’Escárnio / Textos Grotescos” (1990)
• “Cartas de um Sedutor” (1991)

Os livros foram rotulados de pornográficos, obscenos, impublicáveis. Muitos críticos se recusaram a lê-los com seriedade. Outros não perceberam que o escândalo era apenas a superfície.

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Por trás da linguagem explícita havia uma crítica devastadora ao moralismo, à hipocrisia cultural e ao próprio mercado editorial.

“O que vocês chamam de pornografia é só o espelho do que consomem em silêncio”, provocava.

O reconhecimento tardio

Foi apenas nos anos finais de sua vida — e, sobretudo, após sua morte, em 2004, em Campinas — que Hilda Hilst começou a ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu. Reedições, estudos acadêmicos, traduções e leituras críticas mais sérias revelaram o óbvio: tratava-se de uma das maiores escritoras brasileiras do século XX.

O escritor Caio Fernando Abreu, um de seus leitores mais atentos, foi direto ao ponto ao definir Hilda como “uma escritora que escreve como quem sangra” — alguém que nunca negociou sua voz.

Hoje, a crítica que a ignorou revisita sua obra com certo constrangimento. Hilda venceu, mas venceu tarde.

Um legado incômodo — como deve ser

Hilda Hilst nunca quis ser confortável. Sua literatura exige, perturba, desorganiza. Não oferece respostas fáceis nem narrativas domesticadas. Talvez por isso tenha sido deixada de lado por tanto tempo.

Mas sua obra ficou.

“Não quero ser compreendida. Quero ser sentida”, escreveu — e nisso foi plenamente bem-sucedida.

Hilda Hilst segue viva justamente onde mais importa: no desconforto que provoca, na inteligência que não envelhece e na coragem de quem jamais pediu licença para escrever.

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