Por Flávio Meireles
Nos últimos cinco anos, o Brasil testemunhou um cenário político conturbado, em que as ações de representantes do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e de órgãos de controle revelaram uma espécie de “política contra políticos”. Em meio a escândalos, investigações, operações policiais e disputas ideológicas, muitos parlamentares e gestores públicos viraram alvos — seja da Justiça, da mídia ou da opinião pública.
A Justiça como protagonista

Desde a Operação Lava Jato, que perdeu força nos últimos anos, o protagonismo das investigações envolvendo políticos migrou para outros braços do Judiciário e para o Ministério Público. Operações como a Pacto da Governabilidade, que atingiu membros do centrão no Congresso Nacional, e a Operação Mensageiro, que prendeu dezenas de prefeitos em Santa Catarina, são exemplos de como a Justiça seguiu mirando políticos.
O Supremo Tribunal Federal (STF) também ganhou protagonismo, não só como árbitro de disputas institucionais, mas como ator político. A Corte foi responsável por barrar medidas de parlamentares e do Executivo, além de julgar políticos influentes — como a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, motivada por ataques ao sistema eleitoral.
Polícia Federal mais autônoma e ativa

A Polícia Federal passou a ter mais autonomia em suas ações, especialmente após mudanças na legislação e no comando da corporação. Investigações contra parlamentares, governadores e até ministros do governo federal se tornaram frequentes. Em muitos casos, essas ações foram interpretadas como tentativas de desestabilizar determinados grupos políticos.
A tensão entre a PF e o Congresso se acirrou em 2023, quando a operação Tempus Veritatis cumpriu mandados contra aliados de Bolsonaro por suspeita de tentativa de golpe de Estado. Parlamentares denunciaram perseguição política, enquanto setores do Judiciário defenderam a legalidade das ações.
CPI e guerra interna no Congresso

No próprio Legislativo, houve um movimento de “caça aos próprios pares”. Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) se multiplicaram, mirando desde questões sanitárias (como a CPI da Covid) até esquemas de corrupção em estatais. Embora muitas CPIs tenham terminado sem grandes consequências jurídicas, politicamente serviram como campo de batalha e desgaste mútuo.
Deputados e senadores se atacaram em plenário, nas redes sociais e nos bastidores, alimentando uma guerra interna em que a política parecia voltada não à sociedade, mas contra os próprios políticos.
Criminalização da política ou purificação?
Especialistas divergem sobre o que está por trás desse cenário. Para o cientista político Cláudio Couto, da FGV, “há uma judicialização da política, mas também uma politização da Justiça. Isso cria um ambiente em que se confunde combate à corrupção com perseguição política”.
Já para a jurista Carol Proner, o fenômeno revela uma tentativa de “purificação da política”, em que setores da sociedade, do Judiciário e da imprensa atuam para eliminar figuras que representam o ‘velho sistema’.
Ameaça à democracia ou aperfeiçoamento do sistema?

Essa política contra políticos tem efeitos ambíguos. Por um lado, amplia o controle e a vigilância sobre os representantes do povo. Por outro, pode esvaziar o debate democrático e enfraquecer instituições, se for usada seletivamente ou com viés ideológico.
O resultado é um país polarizado, onde o combate à corrupção se mistura com disputas de poder, e onde a fronteira entre justiça e política se torna cada vez mais tênue.
LINHA DO TEMPO | 2020–2025: Política contra Políticos
2020
-Desmonte da Lava Jato: A operação mais emblemática contra a corrupção começa a perder força com decisões do STF que anulam condenações, como a do ex-presidente Lula.
-Crise entre Bolsonaro e o STF: Presidente ataca ministros da Corte, que passam a reagir com investigações por fake news e ataques institucionais. Pandemia e a CPI da Covid (mobilizada mais tarde): O início da crise sanitária abre espaço para críticas à gestão federal
2021
– CPI da Covid: Senado investiga omissões do governo federal na pandemia. O relatório final pede o indiciamento de mais de 60 pessoas, incluindo o então presidente Bolsonaro.
– Prisões de prefeitos e vereadores: Diversas operações da PF e do MP prendem gestores municipais por fraudes em contratos da saúde.
– Cassações no TSE: Avanço de julgamentos eleitorais contra políticos acusados de abuso de poder.
2022
– Eleições polarizadas: A disputa entre Lula e Bolsonaro exacerba o clima de perseguição política. O TSE acelera punições por fake news.
– Bolsonaro ataca sistema eleitoral: Reações do STF e do TSE se intensificam, e abrem inquéritos contra o presidente e aliados.
– Governadores investigados: Em meio à campanha eleitoral, operações atingem chefes do Executivo estadual por corrupção e compra de votos.
2023
– Inelegibilidade de Bolsonaro: TSE decide, por maioria, torná-lo inelegível por 8 anos, alegando abuso de poder político em reunião com embaixadores.
– Operação Tempus Veritatis: PF investiga tentativa de golpe de Estado; aliados de Bolsonaro são alvos de mandados.
– STF amplia investigações sobre parlamentares: Ações contra deputados ligados a atos antidemocráticos aumentam.
– Tensão entre Congresso e Judiciário: Presidente da Câmara, Arthur Lira, acusa STF de invadir competências do Legislativo.
2024
– Câmara reage: Propostas para limitar poderes do STF ganham força no Congresso.
– Operação Mensageiro: SC: mais de 20 prefeitos presos por corrupção em contratos de coleta de lixo.
– CPI das ONGs na Amazônia: Críticas cruzadas entre políticos sobre uso político do meio ambiente.
– Debate sobre “ativismo judicial” domina a pauta política e jurídica.
2025 (até julho)
– STF julga “PL das Fake News” e criminalização de discurso de ódio; tensão com parlamentares que veem censura.
– Investigação sobre uso de emendas do relator volta à tona: Ministério Público apura possíveis desvios no chamado “orçamento secreto”.
– Disputa pré-eleitoral esquenta: denúncias e dossiês contra pré-candidatos se multiplicam.
– Debate sobre anistia a Bolsonaro e outros investigados divide o Congresso.



















